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Capitães de Areia é o retrato do Brasil de hoje


Para quem nasceu no berço da miséria, poucas coisas mexem com você. Capitães de Areia, do Jorge Amado, é uma delas.

Essa história sobre os meninos que vivem na rua, na pobreza, com fome e frio, lutando para sobreviver, ainda é o retrato do Brasil. As aventuras de Pedro Bala e seus companheiros são lindas, tristes e deslumbrantes. O Carrossel nos faz lembrar que são apenas crianças. Pirulito, com sua dúvida em roubar a imagem de Jesus, nos dá uma sensação estranha, o que Deus faz por esses meninos?

Sem-Pernas quer o amor, mas o rejeita para cultivar o ódio que tem do mundo. Ele acha melhor se matar do que ser preso e torturado novamente.

Quantas maldades aquelas crianças não sofreram? Quantas crianças reais ainda hoje não passam por isso? Milhares. Todos os dias. Em cada cidade deste país. A diferença é que hoje elas não se chamam Pedro Bala, Sem-Pernas ou Boquinha. Elas têm outros nomes, vivem outros “Capitães”, enfrentam armas mais pesadas e um descaso, muitas vezes, maior. A atualização de Capitães de Areia está nos noticiários, nas estatísticas de violência contra jovens, nos números de evasão escolar e nas filas de abrigos superlotados.

Ler Jorge Amado hoje não é apenas um exercício literário; é um ato de reconhecimento. É encarar que a miséria que ele denunciou não foi resolvida, apenas se transformou. E, como ele mostra, enquanto houver um só menino dormindo sob um viaduto ou sendo caçado como um animal, a luta de Pedro Bala, ainda não terminou.



“Que culpa eles têm? Roubam para comer porque todos estes ricos que têm para botar fora, para dar para as igrejas, não se lembram que existem crianças com fome.”

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